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Entretenimento

Shakira antes de Copacabana: estrela já fez show a R$ 5 em Uberlândia e foi jurada da Banheira do Gugu

abril 30, 2026Nenhum comentário0 Visitas

Shakira em performance no Grammy, a premiação mais importante da música, em Los Angeles, em 2025
Kevin Winter/Getty Images for The Recording Academy
Embora seu próximo show no Brasil, no próximo sábado (02/04), seja gratuito, Shakira hoje cobra até mil reais por um ingresso para suas apresentações tradicionais, reservadas às grandes arenas e estádios do país. Foi assim em sua última passagem pelo país, por Rio de Janeiro e São Paulo, em novembro passado.
Esse valor pode chocar alguns fãs de longa data da artista, que assistiram às suas primeiras apresentações no Brasil, em 1997, quando ela se lançou ao mercado nacional. Na época, a colombiana chegou a fazer um show com ingressos a R$ 5 (o equivalente a R$ 43 em valores atuais).
Um anúncio dessa apresentação, que aconteceu em Uberlândia (MG), tem viralizado nas redes sociais desde quando ela foi anunciada como a próxima atração do projeto Todo Mundo no Rio, que promove, desde 2024, um megashow anual gratuito de uma estrela internacional nas areias da praia de Copacabana.
Anúncio de show de Shakira em Uberlândia por R$ 5 em 1997
Redes sociais/Reprodução
O show em Minas Gerais em 1997 fez parte da Exposição Agropecuária do Camaru. Naquele ano, porém, a colombiana fez dezenas de apresentações parecidas pelo Brasil afora.
Ela cantou no Olympia, uma extinta casa de shows na capital paulista, no bairro da Lapa, com entradas a partir de R$ 30, mesmo valor cobrado para se apresentar no Moinho Santo Antônio, outro antigo espaço de eventos da cidade, na Mooca.
O preço dos ingressos desses eventos podem ser vistos no acervo da Folha de São Paulo, disponível no site do jornal, que à época publicou reportagens sobre as apresentações.
Se corrigidos pelo IGP-M (Índice Geral de Preços – Mercado), os R$ 5 e os R$ 30 que os fãs precisaram desembolsar para assistir à colombiana hoje seriam equivalentes a cerca de R$ 43 e R$ 257, respectivamente.
Os valores, na época, representavam 4,17% e 25% do salário mínimo vigente, de R$ 120. A comparação hoje seria muito diferente: o ingresso para a turnê Las Mujeres Ya No Lloran, no ano passado, equivalia a 66% da renda mínima — o que virou praxe para apresentações de estrelas globais no país.
Esses shows faziam parte de uma estratégia para impulsionar Shakira no Brasil. Em 1996, ela já fazia muito sucesso na Colômbia, mas era pouco conhecida fora de lá.
Montagem do palco de Shakira na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro
Antonio Lacerda/EPA/Shutterstock
Receita do sucesso
Antes de comandar aquela que ficou conhecida como a maior pista de dança do mundo, em Copacabana, Shakira teve que rebolar. Literalmente.
Em um périplo pelo Brasil, com shows em dezenas de cidades e entrevistas em programas de rádio e televisão a perder de vista, não houve o que a artista não fizesse para conquistar os brasileiros.
Imagens do arquivo do SBT cedidas à BBC News Brasil mostram uma dessas entrevistas. Na Páscoa de 1997, a cantora participava do Domingo Legal, sob o comando de Gugu Liberato.
O apresentador, conhecido nos bastidores por seu anseio por audiência, pediu à colombiana para sambar, fazer a dança do ventre — que mais tarde se tornaria um elemento central em coreografias de hits como Hips Don’t Lie — e aprender “a dança da bundinha”, inspirada em A Dança do Bumbum, do grupo É o Tchan.
Isso tudo fazia parte da estratégia que a Sony Music havia criado. Além do carisma da artista, que também aprendeu a falar português, a gravadora contou com um investimento de US$ 2,8 milhões.
Foi o suficiente para levá-la ao estrelato, com mais de um milhão de discos vendidos em um mercado especialmente difícil para estrangeiros, devido à sua competitividade.
O Brasil, afinal, é o país que mais escuta a própria música, com 75% do consumo no streaming voltado à produção nacional, segundo a Luminate, empresa especializada em dados da indústria do entretenimento nos quais as paradas da revista Billboard se baseiam.
Calejado por décadas nos corredores de gravadoras brasileiras, Luiz Calainho, que era diretor de marketing da Sony Music, e depois viria a se tornar vice-presidente do selo, sabia de todas essas dificuldades.
Além de levá-la aos canais de TV e emissoras de rádio, Calainho convidou repórteres de jornais e revistas para irem até a Colômbia entrevistá-la e a levou para encontros com executivos e vendedores de lojas como a Americanas, uma das vitrines que mais comercializavam CDs no país.
Um pouco mais tarde, quando já era conhecida, a cantora enfim fez sua peregrinação pelas cinco regiões do Brasil, levando shows não só a capitais ou regiões metropolitanas, mas também aos rincões do país.
Só no interior paulista, por exemplo, Shakira se apresentou em Barretos, conhecida como a meca do sertanejo, por sua Festa do Peão, e Ribeirão Preto.
Parceira com a Jovem Pan
Houve ainda outro fator essencial para o sucesso de Shakira no Brasil: uma parceria com a rádio Jovem Pan, que era a estação mais ouvida pelos jovens no país.
Calainho conta que ofereceu ao dono da emissora, Antônio Augusto Amaral de Carvalho Filho, o Tutinha, US$ 1 para cada disco que a artista vendesse no Brasil.
“Se não me engano, cada música dela tocava de três a quatro vezes por dia, fora todo o envolvimento editorial. A Jovem Pan virou sócia do produto”, ele conta. “Shakira vendeu, se não me engano, 1 milhão e 60 mil cópias de discos. Só nesta operação a emissora ganhou US$ 1 milhão.”
O executivo explica as cifras: na época, um real equivalia quase diretamente a um dólar, e cada disco custava em torno de R$ 15. Foram, então, US$ 15 milhões de lucro bruto, valor atualmente inalcançável para a maior parte dos artistas.
Hoje, ele compara, um investimento desse faria pouco sentido, porque o alcance da mídia tradicional não é mais o mesmo. No fim dos anos 1990, a Jovem Pan atingia 15 milhões de pessoas por dia, segundo reportagens da época. Hoje, alcança metade desse público no rádio — mas ao longo de um mês inteiro, não de um dia.
Luiz Calainho, que era diretor de marketing da Sony Music Brasil, ao lado de Shakira, em 1997
Arquivo pessoal
O rendimento dos CDs também minguou, afirma Calainho, que se ampara em relatórios como os do Instituto Pró-Música, representante da Federação Internacional da Indústria Fonográfica no Brasil.
Embora o mercado de discos tenha voltado a crescer — com uma alta de 31,5% em 2024 —, ele se tornou ínfimo perante o streaming e representa só 0,6% dos R$ 3 bilhões movimentados pela indústria fonográfica brasileira, ante 88% do streaming.
“Vivíamos em outro planeta. Havia essa capacidade milionária de investimento porque, na outra ponta, a rentabilidade do CD era estratosférica. A prensagem custava US$ 0,89, mais US$ 4 de direitos autorais. A gente vendia por R$ 15. Até um determinado momento, você pagava o investimento, mas, depois, era dinheiro na veia e na alma da gravadora”, diz Calainho.
A cantora colombiana Shakira
Getty Images
Carisma e disposição
O que também parece não existir mais, afirma o executivo, é a disponibilidade dos artistas. A própria Shakira era outra na época — seu visual, aliás, era marcado por cabelos pretos que em nada lembram o loiro pelo qual ela é conhecida hoje.
Tamanha era sua disposição que, no Domingo Legal, a cantora foi até jurada do quadro A Banheira do Gugu, no qual homens de sunga agarravam e tentavam impedir que mulheres de biquíni retirassem sabonetes de uma banheira.
Ela já havia se acostumado à TV brasileira. Em uma de suas primeiras entrevistas no Brasil, no Programa Livre, de Serginho Groisman no SBT, a plateia, formada em sua maioria por jovens, não poupou a artista de pedidos como “podemos ver seus ‘pies descalzos’?”, em referência à música Pies Descalzos, Sueños Blancos.
A resposta? “Sim. Só espero que eles não estejam tão sujos.”
“Há 30 anos, o artista sabia que tinha que ir para a rua, ir à loja, ao programa de TV. A disposição dos mega-artistas agora é outra, e a dinâmica é diferente”, afirma Calainho, à frente da L21 Corp, agência que comanda uma série de empresas do ramo do entretenimento, de gravadoras a casas de shows.
“Também havia coisas que hoje em dia não são nem mais possíveis, né? A Banheira do Gugu seria completamente inviável”, ele acrescenta. “Mas Shakira era uma artista que estava realmente a fim de virar a carreira no Brasil.”
Texto originalmente publicado em 12/02/2026 e atualizado em 30/04/2026, antes do show em Copacabana.
Tudo o que você precisa saber para ir ao show da Shakira em Copacabana

Fonte: G1 Entretenimento

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