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Entretenimento

‘Robin Hood não era herói’: como foram apagadas as sombrias e violentas origens medievais do personagem

junho 19, 2026Nenhum comentário0 Visitas

‘Robin Hood não era herói’: como foram apagadas as sombrias e violentas origens medievais do personagem
Getty Images via BBC
Importante: esta reportagem contém uma descrição clara de violência que pode ser perturbadora para alguns leitores.
Quando o diretor e roteirista Michael Sarnoski começou a filmar seu novo longa-metragem, ele mostrou ao elenco e à equipe de produção um desenho animado que ele adorava.
Era o Robin Hood animado da Disney, de 1973, que mostra o herói como uma raposa com uma pena no seu chapéu verde, roubando dos ricos para dar aos pobres.
Esta versão tão popular não poderia estar mais longe do profundo e sombrio drama de Sarnoski, A Morte de Robin Hood.
Hugh Jackman interpreta um Robin grisalho, desgastado pelas batalhas e pensativo no final da vida, profundamente consciente da sua própria lenda.
Agora no g1
Ele encontra uma mulher que fala sobre o virtuoso justiceiro Robin Hood, mas ele nega sua identidade e se refere a si próprio em terceira pessoa.
“Ele não era um herói. Ele roubava e matava para se divertir, nada mais que isso.”
Na verdade, este Robin Hood violento e outras visões revisionistas contra a heroica imagem de benfeitor do personagem estão mais próximas das lendas medievais originais do que o estereótipo familiar que imaginamos hoje em dia.
A imagem de Robin Hood se transformou ao longo dos séculos. Cada mudança refletia a era que o reinterpretava.
As variações mais sombrias do século 21 remontam às origens da história. Mas, como destacam alguns dos seus criadores, também refletem o presente.
As visões complexas do personagem desafiam um mundo polarizado, onde os heróis e vilões costumam ser exclusivamente bons ou maus, de forma tão simplificada quanto a lenda de Robin Hood se tornou ao longo dos séculos.
Quem foi Robin Hood?
Especula-se muito se realmente existiu um Robin Hood na vida real, mas a maioria dos historiadores concorda que não tenha havido um indivíduo vivo por trás do personagem.
O que existia era uma sociedade com imensas desigualdades, com ricos donos de terras e camponeses empobrecidos, que inspirou sua criação.
As histórias surgiram como tradição oral no século 12, mas os primeiros relatos escritos só chegaram dois séculos mais tarde, em baladas que o mostravam como um personagem famoso, mesmo tanto tempo depois.
Nestes primeiros relatos escritos, não se tratava do nobre Sir Robin de Locksley, como mostram as versões posteriores. Ele não era nobre, mas sim um pequeno proprietário rural, que estava apenas um degrau acima dos camponeses.
Lady Marian só entraria na história no século 16. E Robin podia ser bom para os pobres, mas seu objetivo principal não era ajudá-los.
Seus inimigos eram o clero corrupto e os nobres proprietários de terras, que se aproveitavam dos seus subordinados.
As histórias sobre Robin Hood surgiram como tradição oral no século 12, mas os primeiros relatos escritos datam de 200 anos depois
Getty Images via BBC
Em um posfácio do seu romance revisionista The Traitor of Sherwood Forest (“O traidor da Floresta de Sherwood”, em tradução livre), de 2025, a historiadora medieval Amy S. Kaufman descreve o Robin Hood das primeiras lendas como “um vigarista medieval moralmente questionável” — “malandro, violento e irreverente”.
A Disney acertou em um ponto: as primeiras baladas indicam que Robin realmente era dissimulado como uma raposa.
Uma mudança importante na história veio no século 16, durante o reinado de Henrique 8° (1491-1547), admirador da lenda que chegava a se vestir como Robin Hood. Foi na época do monarca inglês, que dividiu a Igreja Católica, que a devoção de Robin à Virgem Maria desapareceu da lenda.
Com as classes mais altas acolhendo o personagem, Robin deixou de odiar a nobreza nas influentes crônicas da época, passando ele mesmo a ser nobre.
Ao assumir a posição de um nobre com moral íntegra, que luta contra seus pares desonestos, Robin Hood deixou de questionar a estrutura de poder da sociedade.
Ele foi convocado para ajudar o bom rei Ricardo (1157-1199) a retomar o trono usurpado pelo seu irmão mau, o príncipe João (1166-1216) — uma parábola incluída na produção da Disney, que mostra João como um leão ambicioso, com sede de poder.
A animação da Disney produzida em 1973, com Robin Hood como uma raposa, solidificou sua imagem de intrépido benfeitor na cultura popular
Alamy via BBC
Livros infantis do século 19 ajudaram a transformar Robin Hood em um benfeitor menos ofensivo, aceitável para a era vitoriana.
E, no século 20, o cinema perpetuou esta imagem com o ídolo das matinês Errol Flynn (1909-1959) interpretando o intrépido Robin no popular filme As Aventuras de Robin Hood (1938).
A Disney solidificaria esta imagem na cultura popular, talvez na sua versão mais influente.
‘Duas versões do mesmo personagem’
Sarnoski conta à BBC que o contraste entre o filme da Disney e a lenda original o fascinava desde criança, quando ele leu uma versão infantil da balada medieval A Morte de Robin Hood.
Nela, Robin morre em silêncio, assassinado por uma prioresa má e seu amante.
“Conheci o Robin Hood da Disney e li em seguida A Morte de Robin Hood, essas duas versões do protagonista”, conta o diretor. “Tentar lidar com isso e compreender como aquele pode ser o mesmo personagem realmente me marcou quando eu era criança”, conta o diretor.
Errol Flynn (dir.) interpretou o intrépido Robin no filme As Aventuras de Robin Hood (1938)
Getty Images via BBC
No filme de Sarnoski, Robin Hood é ferido durante uma chocante batalha exibida no filme. Uma flecha atravessa a cabeça de um menino pela parte de trás e sai pelo seu olho e ele é levado a um mosteiro para se recuperar.
Jodie Comer interpreta a prioresa. Ela é gentil, diferentemente do retrato da balada.
“Eu não quis que a prioresa fosse apenas aquela freira malvada, nem que Robin fosse simplesmente aquele herói bom”, explica Sarnoski sobre seus personagens, mais profundos.
Quando Robin reflete e começa a se lamentar por seu passado, o filme “realmente se torna uma história sobre ele, que enfrenta sua própria lenda e seu desejo sobre o que seria uma morte correta”, prossegue o diretor.
Hugh Jackman interpreta o protagonista do novo filme do estúdio A24, uma visão revisionista de Robin Hood que retoma a sombria lenda original da Idade Média
A24 via BBC
A distorção da lenda também é um tema importante do romance de Kaufman. Da mesma forma que Sarnoski, ela formou suas primeiras impressões sobre a história com o desenho da Disney.
“Cresci com a raposa Robin Hood”, conta ela à BBC. “Mais tarde, mergulhei nos estudos medievais, descobri as baladas e me perguntei: ‘Onde está meu Robin Hood, que conheço e adoro?’”
Seu livro se concentra na personagem fictícia Jane, uma camponesa que se apaixona pela lenda de Robin Hood. Ela se encanta com ele e entra para o seu bando, mas começa a se perguntar se a imagem heroica e o próprio Robin a iludiram com sua sedução.
Fiel às origens do personagem, o Robin de Kaufman não é herói, nem vilão.
Ela conta que, nas baladas, “ele é incrivelmente subversivo, quando você observa como ele se levanta contra as pessoas que detêm o poder, como os reis, a nobreza, a Igreja”.
“Mas, em todas as baladas, ele também tem um fim trágico ou é vítima das suas próprias imperfeições.”
Além de Flynn, atores como Douglas Fairbanks, Russel Crowe e Kevin Costner (foto) interpretaram Robin Hood e quase todos mantiveram a imagem estereotipada do personagem.
Getty Images via BBC
No século 20, essas visões mais complexas de Robin Hood eram raras.
No cinema, atores como Douglas Fairbanks (1883-1939), Kevin Costner e Russel Crowe interpretaram o papel e quase todos seguiram a imagem estereotipada.
Uma exceção marcante é Robin e Marian (1976), um filme elegante e inteligente, que merece ser muito mais conhecido.
Sean Connery (1930-2020) interpreta um Robin envelhecido que, após décadas, reencontrou Marian (Audrey Hepburn, 1929-1993), agora prioresa.
Este Robin nega que as histórias lendárias sobre ele sejam verdadeiras e aparece contemplativo no final da vida.
“Sempre penso em todas as mortes que presenciei”, conta ele a Marian, questionando qual foi o seu propósito.
Robin e Marian (1976), com Sean Connery e Audrey Hepburn, é um filme elegante e inteligente, que mostra o personagem contemplativo no final da sua vida
Getty Images via BBC
Questões sobre poder, heróis e como as histórias são contadas são exatamente o que faz com que as visões revisionistas pareçam tão atuais.
“O mundo está consolidando o poder de forma similar à Idade Média”, segundo Kaufman. “Algumas das coisas que eles precisavam estudar são as mesmas que precisaremos examinar hoje.”
Sarnoski destaca como seus personagens utilizam suas histórias como instrumentos de poder.
“Robin usava as histórias como armas e como forma de perpetuar a violência”, atraindo seguidores, segundo ele. Já a prioresa “usa as histórias para ajudar e curar as pessoas”.
Atualmente, estas estratégias estão por toda parte.
“Estamos, agora, imersos em narrativas, entre as redes sociais, a internet e simplesmente em tudo o que nos rodeia”, prossegue Sarnoski.
“Nós nos dividimos muito rapidamente em aldeias e tribos, criando heróis e vilões, e não vivemos na área cinza onde realmente mora a vida.”
Por mais estimulantes que possam ser novas versões mais sombrias de Robin Hood, elas provavelmente não irão substituir a imagem criada pela Disney.
“Nem todos querem ver sua fantasia de Robin Hood destruída”, explica Kaufman.
“Ele se tornou uma espécie de Papai Noel, no sentido de que representa algo maior que a lenda original, seja ela qual for.”
A Morte de Robin Hood está em cartaz nos cinemas brasileiros.
Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Culture.
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Fonte: G1 Entretenimento

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