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Entretenimento

A história da monobloco, a humilde cadeira branca de plástico que conquistou o mundo e inspirou Bad Bunny

abril 5, 2026Nenhum comentário0 Visitas

Ricky Martin apareceu sentado em uma cadeira de plástico no show do intervalo de Bad Bunny no último Super Bowl, nos Estados Unidos.
Kevin Mazur/Getty Images for Roc Nation
Você pode não saber o nome dela, mas talvez esteja lendo esta reportagem sentado nela.
Também é possível que tenha alguma recordação associada a elas. Pode ser o churrasco no quintal dos amigos, onde sempre cabe mais um, já que elas ficam empilhadas no canto. Ou a cerveja gelada no bar da praia, com os pés enterrados na areia, suando com o calor pelo contato com o plástico.
A cadeira monobloco — aquela humilde cadeira de plástico, normalmente branca, que você sem dúvida conhece e onde já descansou tantas vezes — é o móvel mais utilizado do mundo, um objeto tão popular que transcendeu todas as fronteiras.
Barata, versátil, leve e resistente às intempéries, a cadeira monobloco é fabricada com uma única peça de plástico, geralmente polipropileno, e se tornou um ícone de projeto industrial que desperta amor e ódio em igual medida.
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Os detratores afirmam que sua onipresença a transforma em um símbolo de vulgaridade, de mau gosto, assassina da estética e um exemplo da cultura do descartável, com suas graves consequências para o meio ambiente.
A cadeira de plástico chegou a ser proibida por dez anos nos espaços públicos da Basileia, na Suíça, porque elas prejudicavam, ao menos na visão das autoridades, a estética da cidade.
Já os defensores destacam seu projeto democrático e todas as principais qualidades que levaram ao sucesso: ela pode ser empilhada, pesa pouco, é muito barata e, geralmente, possui um formato ergonômico que a torna muito cômoda.
A monobloco ocupa lugar privilegiado na capa do premiado disco Debí Tirar Más Fotos, do artista porto-riquenho Bad Bunny, o que diz muito sobre esse laço sentimental que une tantas pessoas a esse tipo de cadeira e às lembranças que ela pode trazer.
A cadeira monobloco está por toda parte
Frank Bienewald/LightRocket via Getty Images/BBC
A cadeira é fabricada injetando-se uma resina de plástico líquida em um molde a cerca de 230°C, que é resfriada e endurece em seguida.
“A monobloco é a combinação do desejo tão arraigado entre os designers de criar a cadeira perfeita, fabricada de forma industrial”, diz Paola Antonelli, diretora do Museu de Arte Moderna de Nova York, nos Estados Unidos (MoMA, na sigla em inglês), no vídeo relativo à exposição Pirouette: Turning Points in Design (Pirueta: Pontos de Inflexão no Design, em tradução livre), de 2025.
Como essa cadeira foi inventada
Os designers começaram a fazer experimentos com a fabricação de cadeiras com uma só peça de material na década de 1920. Os primeiros testes utilizaram uma chapa metálica, que era prensada, ou madeira laminada.
Mas foi em 1946 que o desenvolvimento do plástico como material resistente e com enorme versatilidade levou o arquiteto canadense Douglas Colborne Simpson (1916-1967) a criar, em colaboração com o engenheiro James Donahue (1917-1996), um protótipo de cadeira empilhável com uma única peça de plástico.
Esta cadeira pode ser considerada a primeira monobloco da história, mas não saiu do protótipo.
Nos anos que se seguiram, os avanços com materiais conhecidos como termoplásticos permitiram a industrialização do processo.
Para isso, foram empregados pellets ou pequenas bolinhas de material plástico como polipropileno. Ao serem aquecidas, elas se liquefazem e podem ser injetadas em um molde. E a tecnologia também permitia a fabricação desses moldes em cores chamativas.
Produtos vindos desta inovação viraram símbolos do design industrial, como a cadeira Panton, criada entre os anos 1958 e 1967 pelo designer dinamarquês Verner Panton (1926-1998); a cadeira Bofinger, criada entre 1964 e 1967 pelo arquiteto alemão Helmut Bätzner (1928-2010); a Selene (1961-1968), do projetista italiano Vico Magistretti (1920-2006); e a Universale (1965), do também italiano Joe Colombo (1930-1971).
Todos esses modelos hoje são objetos de desejo de colecionadores e amantes do design, principalmente de interiores. Eles podem ser encontrados nos museus e em lugares sofisticados.
Mas como passamos da Panton ou da Bofinger para a humilde cadeira de plástico das praias?
A fabricação dessas peças continuava sendo cara, mesmo de forma industrial. Até que, em 1972, o engenheiro francês Henry Massonet (1922-2005) criou sua Fauteuil 300 (Cadeira 300, em tradução), considerada o arquétipo da cadeira de plástico barata, segundo o museu de design Vitra, localizado na cidade de Weil am Rhein, no sudoeste da Alemanha.
Para aprimorar a eficiência do processo de fabricação, Massonet conseguiu reduzir a duração do ciclo de fabricação para apenas dois minutos e comercializou a cadeira através de sua empresa, a Stamp.
A Fauteuil 300 tinha braços e era muito parecida com a monobloco de hoje. Mas, inicialmente, ela não foi muito popular, já que teve o azar de surgir junto com a primeira grande crise do petróleo, em 1973.
“Os móveis de plástico haviam sido um presságio do futuro, mas, naquela época, eram considerados cada vez piores”, diz sua descrição no Vitra. “Isso como resultado não apenas do aumento do preço da matéria-prima, mas também de uma nova consciência ambiental.”
Branca ou colorida, a cadeira monobloco é onipresente nas praias, como nesta imagem da praia do Francês, localizada em Alagoas
Getty Images/BBC
Mas Massonet nunca patenteou sua invenção, segundo Paola Antonelli, que é diretora do departamento de arquitetura e design do MoMA, em Nova York. Isso permitiu que muitas empresas copiassem seu processo de fabricação e seu modelo, que foi alterado várias vezes.
Na década de 1980, o grupo francês Grosfillex conseguiu fabricar sua cadeira de jardim de resina a um custo tão baixo que pôde lançá-la no mercado a preços muito competitivos, multiplicando exponencialmente sua popularidade e transformando a monobloco em um produto de massa.
Durabilidade
Em muitos lugares, a quebra de uma perna não significa que a cadeira será jogada fora
Getty Images/Via BBC
Dê uma olhada nos seus álbuns de fotos, como fez Bad Bunny. Essa cadeira certamente aparece em mais de uma imagem, seja na sua casa, seja nas suas viagens mais exóticas.
Você a encontra, por exemplo, na medina de Rabat, no Marrocos; em uma reunião política em Marselha, na França; em um restaurante nas ruas de Pequim, na China; revestida de tecido em uma festa de casamento em Buenos Aires, na Argentina; ou nas ruas de alguma pequena cidade mediterrânea, onde as vizinhas a levam à tarde para passear e conversar ao ar livre e ver o tempo e a vida passarem.
E não há só cadeiras brancas. Elas são fabricadas em muitas cores, com designs diferentes, com e sem braços, de diversas qualidades.
Mais de uma vez, os pés dos modelos mais econômicos foram quebrados ao receberem alguém mais pesado ou que gosta de se balançar. Mas outras duram décadas.
Calcula-se que a fabricação da cadeira monobloco custe cerca de US$ 3 (cerca de R$ 16) e, em muitos lugares, ela chega a ser vendida por apenas US$ 10 (cerca de R$ 52), o que faz dela um objeto onipresente.
Mas US$ 10 não valem o mesmo em Acra (Gana) e em Berlim (Alemanha). Por isso, em algumas sociedades ricas, ela é um objeto que é jogado fora quando estraga. Mas, em muitos outros lugares, é consertada e adaptada às necessidades dos usuários.
Cadeiras brancas de plástico costuradas com arame ou presas com talas são comuns em bairros mais humildes e nas zonas rurais de muitos países. Por isso, a cadeira monobloco encarna um paradoxo, segundo Antonelli, do MoMA.
“Em alguns países, ela é produzida em massa e descartada rapidamente, enquanto, em outros, é valorizada e reparada, o que reflete diferentes percepções do seu valor.”
Para ela, “sua natureza multifacética simboliza a complexa cultura do consumo no mundo de hoje”.
Para o teórico social Ethan Zuckerman, o design de alguns objetos “atingiu tamanho grau de perfeição que eles não precisam ser adaptados para ter sucesso, seja na África, seja nos bairros residenciais dos Estados Unidos”.
Zuckerman foi diretor do centro de meios de comunicação cívicos do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos, conhecido como MIT, na sigla em inglês.
Seu estudo, intitulado Those White Plastic Chairs – The Monobloc and the Context-Free Object (Aquelas Cadeiras Brancas de Plástico — A Monobloco e o Objeto Livre de Contexto, em tradução livre) traz uma advertência para os críticos de objetos como esta cadeira tão popular.
Para ele, “desprezá-los é um risco: os objetos como a monobloco alcançaram uma fama mundial com que poucos seres humanos sequer sonharam”.

Fonte: G1 Entretenimento

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